Tenho criado um coração mimado.
É uma espécie de mimo diferente, já que não se deve ao excesso de amor, e sim à falta. Não à falta de amor-próprio, embora um pouquinho mais dessa fosse vista com bons olhos, não é a essa falta que me refiro. Meu coração é mimado pelo costume que eu adquiri durante todo esse tempo – que não sei se realmente existiu fora de mim, ou foi só o furacão que tem transitado aqui dentro. O fato é que tenho mimado meu coração com a dor. E não é que a dor esteja sendo inventada, multiplicada e cultivada, intencionalmente, simplesmente porque ele precise de alguma espécie de movimento para continuar sentindo vontade de bater.
Por tempo demais me alimentei dos dias cinzentos, que com o passar dos dias (que duravam séculos) iam sendo substituídos por qualquer outra coisa do gênero que fosse suficiente. Tentei a chuva incessante, o frio que vinha para ficar, o calor que não tocava, minha incapacidade de sair do lugar. Pus culpa na falta de intensidade, no excesso dela, na falta de amor, no excesso dele em mim, culpei a mim mesma por não saber quem realmente sou, sem perceber que de fato ninguém sabe, a diferença é que os outros são inteligentes o suficiente pra não ficar surtando por causa disso, ou não são inteligentes ao ponto de pensar sobre isso, não importa como eu defina, são os outros e não andam psicologicamente arcados com uma alma velha e cansada.
Sei que não posso, gênios da lâmpada à parte, o que eu queria mesmo era parar de pensar por um dia. Viver mesmo, inconsequentemente, não preciso de loucuras extremas nem nada, simplesmente sem pensar no movimento da vida, da roda, de qualquer coisa. Sem pensar em mim, dentro de mim, na diferença, na agonia,
"Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito”. C.L.
quarta-feira, 12 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
Meu Pai,
perdoa eu ainda não ter achado o caminho para te sentir dentro de mim. Perdoa as raras vezes em que acreditei profundamente que estavas comigo não terem tido a naturalidade que deveriam.
Me dê forças Senhor, para viver 24 horas por dia sendo eu mesma, com o caminhão de coisas que isso traz. Me ajuda a não perder nunca a capacidade de sonhar, de sorrir sem esse peso que me acompanha pra tudo quanto é canto.
Me ajuda a não perder a beleza da vida, da felicidade e das crianças.
Me dá coragem Pai, para dar a volta por cima de mim mesma e mudar. Me dê alma e muita coragem.
perdoa eu ainda não ter achado o caminho para te sentir dentro de mim. Perdoa as raras vezes em que acreditei profundamente que estavas comigo não terem tido a naturalidade que deveriam.
Me dê forças Senhor, para viver 24 horas por dia sendo eu mesma, com o caminhão de coisas que isso traz. Me ajuda a não perder nunca a capacidade de sonhar, de sorrir sem esse peso que me acompanha pra tudo quanto é canto.
Me ajuda a não perder a beleza da vida, da felicidade e das crianças.
Me dá coragem Pai, para dar a volta por cima de mim mesma e mudar. Me dê alma e muita coragem.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso." (Caio F.)
Que droga essa ausência. Falta alguma coisa que eu nunca tive, como uma perna que eu não perdi mas que deixou uma dificuldade enorme. Me vem aquela vontade idiota de sair na rua sem um pedaço, como se fosse algo bonito, para que sintam pena, para que reparem, não em mim, mas na minha ausência, já que esse buraco gigante que eu carrego aqui dentro é imperceptível até pros meus olhos.
Não, eu não tenho dragões aqui comigo, não tenho asas e o vento não sopra mais. Já é natural sentir certo companheirismo com os dias cinzas, com as almas doídas, com a falta de força e com o desespero. Aquele desespero que não grita, que se perde no silêncio, que não tem nem um olhar, quanto mais palavras pra demonstrar tudo o que atormenta.
Não é estranho que ainda assim a gente brinque que nem criança? e que vez em quando consiga esquecer absolutamente tudo?
"A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão." (Caio F. também, claro.)
Que droga essa ausência. Falta alguma coisa que eu nunca tive, como uma perna que eu não perdi mas que deixou uma dificuldade enorme. Me vem aquela vontade idiota de sair na rua sem um pedaço, como se fosse algo bonito, para que sintam pena, para que reparem, não em mim, mas na minha ausência, já que esse buraco gigante que eu carrego aqui dentro é imperceptível até pros meus olhos.
Não, eu não tenho dragões aqui comigo, não tenho asas e o vento não sopra mais. Já é natural sentir certo companheirismo com os dias cinzas, com as almas doídas, com a falta de força e com o desespero. Aquele desespero que não grita, que se perde no silêncio, que não tem nem um olhar, quanto mais palavras pra demonstrar tudo o que atormenta.
Não é estranho que ainda assim a gente brinque que nem criança? e que vez em quando consiga esquecer absolutamente tudo?
"A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão." (Caio F. também, claro.)
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
quis escrever
Quis escrever uma coisa meio trágica assim. Não trágica no sentido que pudesse magoar alguém, ou impressionar, ou simplesmente surpreender. Não, não era com o intuito de ser notada por ninguém. Eu quis escrever uma coisa bem doída, não pra magoar nem fazer ninguém chorar, não pra doer outro coração da maneira como dói esse daqui. Quis de repente escrever algo doce, pra despertar um sorriso, um fiozinho de esperança em algum coração que já estivesse perdido, mas eu sabia que não tinha essa capacidade. Não com tamanha agonia latejando aqui dentro. Quis escrever uma coisa meio trágica assim, de um modo que fosse suficiente e que fosse capaz de esticar meu coração no papel, para que não faltasse nem um pedaço incompreendido, para que nada ficasse de lado esperando o momento certo para dar o bote. Quis escrever um manual de compreensão, não para alguém que num futuro distante despertasse a vontade de me entender a fundo, mas para mim mesma. Foi aí que surgiu a vontade de escrever algo meio trágico assim. E repetitivo, porque era assim que eu me sentia.Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Vazio. Nem que eu repetisse mil vezes seria capaz de transmitir o tamanho dele aqui dentro. Muito menos a sua intensidade. Meio irônico, eu diria se me perguntassem, pra não quebrar tudo de vez dizendo que era apenas uma piada de mau gosto. Logo eu, que sempre implorei pela tal da intensidade, me vi reclamando do excesso dela na minha vida. É que não era essa intensidade pela qual eu tanto rezava, entende? Não que eu já tivesse rezado por ela, porque eu sempre achei que seria egoísmo da minha parte. Assim como não era essa intensidade, não era também essa a paz que eu tanto queria. Paz fria e esmagadora dos cemitérios, como quando nada de interessante acontece, e tudo o que antes era grande acaba fazendo parte de uma rotina meio monótona, de um jogo que a gente já cansou de jogar faz algum tempo. Se houvesse horizonte talvez a gente arranjasse forças pra continuar a jogar.
Como se de repente surgisse uma onda na minha frente, monstruosa e imponente, e varresse consigo qualquer indício de futuro promissor. É que eu não queria pena de ninguém, nem aquele olhar de tristeza, por isso que eu me deixava envolver pela tal onda. Por isso que eu ainda me deixo. Eu queria escrever alguma coisa meio trágica assim, pra pôr tudo pra fora de uma vez.
Como se de repente surgisse uma onda na minha frente, monstruosa e imponente, e varresse consigo qualquer indício de futuro promissor. É que eu não queria pena de ninguém, nem aquele olhar de tristeza, por isso que eu me deixava envolver pela tal onda. Por isso que eu ainda me deixo. Eu queria escrever alguma coisa meio trágica assim, pra pôr tudo pra fora de uma vez.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Oi. To precisando de ti. Quero sentir tua mão pelo meu cabelo, me acalmando daquele jeito que só tu sabes e que eu nunca pude sentir. Preciso do teu olhar compreensivo que nunca pousou sobre o meu. Da tua capacidade única de transformar todas as minhas incertezas em sonhos a serem realizados. Do teu sorriso que nunca me levou para um mundo além desse que eu conheço.
Preciso daquele teu abraço forte, que traz certeza e calma, que traz verdade e dá razão a tudo, sentimento que eu nunca pude desfrutar. Quero sentir contigo o tempo voar e não ter importância, mas tudo o que eu escuto é o tic-tac cada vez mais forte. Tenho urgência de ti que eu nunca encontrei, que eu nunca esbarrei na esquina, nunca achei perdido numa festa. Preciso do sonho que não és pra mim, pois me mantenho constantemente acordada.
Ando com uma ânsia de aprender todas as coisas que não me ensinastes, revives todas as nossas lembranças que eu não tenho. Quero te contar sobre o meu dia, sobre o que eu comi, com quem eu falei. Quero te dizer que tinham nuvens fofas no céu, e ainda assim eu me sentia presa numa névoa meio cinza. Dizer que o dia hoje passou devagar porque não pude ouvir tua voz que não sei se é doce ou forte. Contar tudo o que eu vi pela rua, que músicas escutei e que livros ando lendo.
Preciso da tua presença que preenche essa ausência seca que eu sempre carreguei nas duas mãos.
"Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho" (Caio F.)
Preciso daquele teu abraço forte, que traz certeza e calma, que traz verdade e dá razão a tudo, sentimento que eu nunca pude desfrutar. Quero sentir contigo o tempo voar e não ter importância, mas tudo o que eu escuto é o tic-tac cada vez mais forte. Tenho urgência de ti que eu nunca encontrei, que eu nunca esbarrei na esquina, nunca achei perdido numa festa. Preciso do sonho que não és pra mim, pois me mantenho constantemente acordada.
Ando com uma ânsia de aprender todas as coisas que não me ensinastes, revives todas as nossas lembranças que eu não tenho. Quero te contar sobre o meu dia, sobre o que eu comi, com quem eu falei. Quero te dizer que tinham nuvens fofas no céu, e ainda assim eu me sentia presa numa névoa meio cinza. Dizer que o dia hoje passou devagar porque não pude ouvir tua voz que não sei se é doce ou forte. Contar tudo o que eu vi pela rua, que músicas escutei e que livros ando lendo.
Preciso da tua presença que preenche essa ausência seca que eu sempre carreguei nas duas mãos.
"Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho" (Caio F.)
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Saber não significa, na verdade, entender, já que parece que quanto mais sabemos, entendemos muito menos. E quanto mais entendemos, menos a gente sabe. Não que isso faça algum sentido.
Céu azul, quente lá fora, não queria me tornar eu mesma de novo dizendo que isso não condiz com a temperatura aqui de dentro. Ou talvez seja tão quente que se torna frio, como se fosse o oposto do frio que queima, ou quem sabe ele mesmo. Não que eu sinta de fato, alguma coisa além da insuficiência, já que ela, tão disforme e confusa, não tem ao certo uma temperatura real.
Céu azul, quente lá fora, não queria me tornar eu mesma de novo dizendo que isso não condiz com a temperatura aqui de dentro. Ou talvez seja tão quente que se torna frio, como se fosse o oposto do frio que queima, ou quem sabe ele mesmo. Não que eu sinta de fato, alguma coisa além da insuficiência, já que ela, tão disforme e confusa, não tem ao certo uma temperatura real.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Minhas asas se quebraram
A melancolia bateu na porta e eu não recuso mais. Entrou coração adentro com sua petulância, imponente, chutando todos os sorrisos tolos que via pela frente. E foi aí que minhas asas se quebraram. No meio do alvoroço causado por esse cinza nostálgico, minhas asas não tiveram mais forças pra continuar com forças. E sem forças então se quebraram.
Gozado o cinza que se instala com um sol de rachar lá fora. Até o sol se sente sozinho hoje, eu acho.
Contando assim parece que o processo foi simples, que a aceitação foi leve. Passamos a vida inteira sonhando e sonhando e sonhando, e ao percebermos o nada que domina, choramos frio no chão sujo. Choramos seco, de tão sós.
E afinal de contas temos um tudo repleto de nada, um nada repleto de tudo, ou seja lá o que for. As incertezas e incompreensões se misturam com os cacos de asa espalhados pelo chão, que não foram nem ao menos recolhidos. Ninguém se deu ao trabalho. Jogados assim eles parecem vidro. Sujos, embaçados, afiados. Feios.
Já não tenho mais as asas pra contar história, nem posso então falar mais delas. Aos poucos, não posso mais falar de nada, e acho que é tudo o que resta.
Já cansei também de metáforas, até elas andam soando vazias. Engraçado esse tal de vazio, sempre acha um jeitinho de se alastrar e se estender um pouquinho mais, dominando tudo com a sua feiúra. Queria mesmo era um letreiro bem grande, com letras garrafais e luminosas, pra colar na minha testa o que eu sinto. Mas o letreiro seria vazio não seria?
-Pisa no chão, olha pra frente, deixa de reclamar pelo nada!- Porque esse coração quebrado não escuta? Porque essa coisinha pequena e machucada se recusa a escolher o caminho menos doloroso? Qual é a dele afinal? Coração tolo!
Me pergunto de onde surgiu esse idealismo que mata. Esses sonhos tão altos que me põem tão baixo. Esses sonhos que ao mesmo tempo não são sonhos, pois não têm apoio para chegar até as nuvens. Minhas asas se quebraram.
Como vidro afiado.
Gozado o cinza que se instala com um sol de rachar lá fora. Até o sol se sente sozinho hoje, eu acho.
Contando assim parece que o processo foi simples, que a aceitação foi leve. Passamos a vida inteira sonhando e sonhando e sonhando, e ao percebermos o nada que domina, choramos frio no chão sujo. Choramos seco, de tão sós.
E afinal de contas temos um tudo repleto de nada, um nada repleto de tudo, ou seja lá o que for. As incertezas e incompreensões se misturam com os cacos de asa espalhados pelo chão, que não foram nem ao menos recolhidos. Ninguém se deu ao trabalho. Jogados assim eles parecem vidro. Sujos, embaçados, afiados. Feios.
Já não tenho mais as asas pra contar história, nem posso então falar mais delas. Aos poucos, não posso mais falar de nada, e acho que é tudo o que resta.
Já cansei também de metáforas, até elas andam soando vazias. Engraçado esse tal de vazio, sempre acha um jeitinho de se alastrar e se estender um pouquinho mais, dominando tudo com a sua feiúra. Queria mesmo era um letreiro bem grande, com letras garrafais e luminosas, pra colar na minha testa o que eu sinto. Mas o letreiro seria vazio não seria?
-Pisa no chão, olha pra frente, deixa de reclamar pelo nada!- Porque esse coração quebrado não escuta? Porque essa coisinha pequena e machucada se recusa a escolher o caminho menos doloroso? Qual é a dele afinal? Coração tolo!
Me pergunto de onde surgiu esse idealismo que mata. Esses sonhos tão altos que me põem tão baixo. Esses sonhos que ao mesmo tempo não são sonhos, pois não têm apoio para chegar até as nuvens. Minhas asas se quebraram.
Como vidro afiado.
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