"Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito”. C.L.

sábado, 18 de julho de 2009

tenho constantemente buscado entre antigos cadernos e recortes algum indício do que me compunha. qualquer poeirinha que bata na minha porta dizendo "oi, um dia você me abraçou e em meio à lágrimas secas de silêncio e dúvidas jurou-me ser para sempre". há meses durmo e acordo nessa rotina que roubou-me meio ano (ou meia vida), e hoje cutuca e arranha-me a garganta essa sensação antiga de estar sendo outra pessoa. não é que eu finja, passa longe da falsidade. mas acho que fugi de mim. de novo.tenho constantemente cantado músicas antigas e respirado versos de outros dias, tentando em vão encontrar aquela poesia perdida em alguma esquina de outra vida. a que sempre chegava atrasada, mas trazia na bolsa a palavra exata, que eu só perceberia ser a certa tempos depois. e por mais que me largasse sempre insatisfeita e insuficiente, era ampla e pura, jogava entre linhas meu coração e livrava-me por alguns minutos de peso que era carregar-me no fundo dos olhos. porque apesar de toda a dor e todas as noites em claro chorando seco no chão frio da solidão de um quarto, eu me dava ao máximo. doava cada milímetro de um coração fraco e perdido a qualquer coisa em que eu acreditasse, a qualquer estrela que possuísse um brilho diferente. e aquela intensidade toda que arranhava e aos poucos corroía, hoje me faz imensa falta. talvez eu nunca soube viver o morno. do oitenta fugi para o oito, com um sorriso estampado no coração e alegando saber viver de novo. gritei e tatuei na minha testa que estava aprendendo a viver. me encontrando, aprendendo a ser. foi então que me perdi.e não é que faria sentido se toda aquela busca interminável e massante ocorresse novamente. não é que eu ainda procure a resposta exata e a razão de estar onde estou. mas sinto falta de um sentido. da roda que me empurraria para algum lugar. ou da busca por algo, ainda que singela. sinto falta de mim. de me ler, de me escrever. de me expôr nua e crua num papel qualquer e depois esquecê-lo numa gaveta, (des)propositalmente. sinto falta do silêncio de uma madrugada inteira, de fechar os olhos e ainda assim continuar enxergando. no medo de olhar mais uma vez demais para dentro, abri os olhos sem fechá-los novamente. e hoje me sinto perdida buscando e me perdendo por entre escritos e recortes e guardados antigos. como se separassem-me em duas. nostálgica por antecipação. inventando histórias e sonhando pouco, quem sabe tento pintar em cima de um pozinho de ausência que restou. ?

domingo, 12 de julho de 2009

"talvez chegaste quando eu te sonhava..."

Talvez seja mais fácil depositar toda a culpa e essa incerteza cansativa, nas circustâncias. No erro ou na perfeição do tempo. Se eu acreditar que fiz parte de um dia teu não programado, de um ontem que chegou mais tarde, quem sabe assim eu possa entender e aceitar, e enfim seguir em frente. Ou talvez seja apenas mais uma desculpa que eu encontrei.O fato é que não importa quantos dias passem, pois mesmo que as decepções sejam somadas a novos sóis, tua estrela insiste em brilhar mais forte. E "nada no mundo cega mais que o teu nome". Porque mesmo sem saber, te criei e com toda certeza acreditei em ti, sem pestanejar.
Mas já não sei (e na verdade nunca soube), se a culpa disso tudo foi minha, e dessa minha mania de me jogar de cabeça em tudo o que não é certo, ou se foi algo muito maior do que isso. Mesmo que eu não acredite, no fundo qualquer um tropeça na idéia de um sonho.Talvez seja exatamente isso que signifiques. E toda essa intensidade deva-se ao fato de que encaixas em todas as minhas exigências e todas as minhas vontades, como se fosses o encaixe perfeito de um sonho, ou talvez o sonho que eu encaixei ao teu redor, quando a vida andava sem andar e meus olhos não sabiam o que fazer. Nesse momento te vi, e acho que acabei acreditando.
Porque logo acreditei, com todo esse meu coração frágil que no fundo ainda acredita em qualquer coisa bonita que venham lhe oferecer, então sem tempo nem disposição para refletir, joguei-me de cabeça no jogo que criei. E todas as minhas expectativas foram entao derrubadas pelo sorriso da alma nao retribuído, pois nem parte da minha vida fazias. E como criança teimosa, meu coração insiste em acreditar nesse sonho que criou e depositou em ti. Nao faço parte da tua vida e nem ao menos sei teu jeito, teu olhar não encontra o meu, mas então por que essa certeza de que fazes tão parte de mim quanto a mais antiga lembrana que tenho de tempos em que tudo ainda fazia algum sentido? E por que essa sensação densa de que ainda há algo para ser vivido?Não posso mais deixar que me invadas desse jeito e abales todas as estruturas que minuciosamente vou construíndo, com todo o cuidado e preocupação de que preciso. Não é nada fácil estabilizar-me desse jeito, plena de qualquer outra coisa. Não me faz mais esperar que esse sentido esteja em ti. Não quero mais acreditar.

terça-feira, 19 de maio de 2009


porque saísses e deixasses a porta aberta sem ao menos se despedires, e não olhasses para trás por estares com os olhos voltados demais para o teu futuro tão frágil e mal construído.

e eu sinto tanta falta. da cumplicidade, do carinho, mas acima de tudo e qualquer outra coisa, da admiração. não é fácil ter um dos seus maiores heróis jogados assim na lama, de um dia pro outro. não é justo que não tivesses me preparado pra esse momento em que jogarias todos os teus valores e teus anos de aprendizado e de amor no lixo, e partirias rumo a um futuro que pensas ser teu, sem pestanejar e olhar para o lado. e se não olhasses sei que é porque não querias ver o mar de sofrimento que deixavas para trás.

porque aquela fogueira que um dia apagou-se com nosso cansaço gostoso, fazendo companhia à nostalgia de dias bem vividos e felizes, hoje ofusca-se e some bruscamente, misturada a toda essa dor e decepção.

quando quebrasses todos os copos da casa e esfarelasses quase todos os pilares que nos mantinham em pé, será que sabias? será que sabes?

é que não posso suportar a idéia de que não se importaríamos e pararias com toda essa besteira se soubesses. mas não te vejo mais, não te conheço, não sei.


não quero mais heróis, não sou mais fã de ninguém. não é justo sofrer tantas conseqüencias de tal catástrofe em que me puseram como espectadora, sem opção. decepção dói.

amor dói mais.

segunda-feira, 16 de março de 2009


Meu amor,

Por fim descansei a xícara vazia de café sobre a mesa. Foi a quarta que entrou deslizando garganta adentro sem ativar nenhum de meus sentidos, e a manhã ainda não acabou. E se você ainda lembra, nem gostar de café eu gosto. Levantei-me da cadeira dura e mais uma vez fugi para a janela, percorrendo a distância absurda de dois metros e meio dentro daquela imensa caixa de sapato suspensa no ar. Típico quarto-sala-banheiro-cozinha enfiados à força onde qualquer ser com o mínimo de bom senso não colocaria mais do que um sofá. Síntese do que costumávamos rir, cuspindo verdades para baixo de um tapete, quando chamávamos algo assim de minha vida.
Mas voltando à janela. Certo dia tivemos uma vista maravilhosa, de frente para o mar, onde o sol entrava radiante pela frente e se punha com graça iluminando todas as coisas e pintando cada mínimo detalhe em um arco-íris vermelho e rosa, temperado com laranja, que invariavelmente nos brotava o maior dos sorrisos no rosto e o melhor dos abraços. Você se lembra? Os pássaros pousavam no parapeito sem medo, e as ruas ainda eram silenciosas e seguras. Mas isso foi há muito. Gigantes de concreto surgiram com uma velocidade inimaginável, e chegávamos a nos assustar ao dobrar uma esquina esquecida. Até o dia em que acordamos e o sol já não entrava mais em casa. Acho que foi em algum momento dessa época que você partiu e levou consigo toda a cor.
Sei que estou sendo piegas e extremamente chata e melosa, mas preciso ter certeza de que você ainda lembra-se daqueles dias. Preciso que você entenda, porque preciso entender.
Não que sua presença fosse palpável, ou que eu houvesse contado com seu coração quando o meu chorava e se recusava a andar em frente. Na realidade, nem falar você falava mais, e eu nunca lhe disse o quanto eu detestava contar meu dia para o vazio de suas palavras devolver-me mais vazio ainda. Mas seu sorriso era meu sol e você ainda era o tamanho perfeito do meu abraço. E meu amor por você permanecia o mesmo.
Sinceramente, há duas semanas que perco o sono tentando lembrar da cor dos seus olhos. Não preciso forçar a lembrança do efeito que eles tinham sobre o meu, porque essa vem incovenientemente nos dias frios – e também nos quentes – mas não importam as horas que perdi (ou que ganhei) afundando conscientemente e sem medo dentro deles, não pareço mais capaz de lembrá-los.

Você sabe o quanto me perco e me desvio se mergulho assim em mim mesma, você me conhece melhor do que ninguém.
E eu peço desculpas.
Mas é que hoje a saudade foi forte demais.

Com meu amor um pouco torto,


S.


domingo, 16 de novembro de 2008

Mudar?





(11/11)

Começar a me alimentar do que é real. Mesmo sem saber de que esse real seria feito. Nunca foi preciso muito mais do que uma dose de coragem para colocar o primeiro pé pra fora da porta de casa. (Mas como fazer se não se ve portas nem janelas?)

Pra fora da porta do coração, sempre tão trancado, tão contido. Por quê? Não que ainda realmente importe. Não que um dia tenha sido muito mais do que o turbilhão interno. Furacão congelado, inércia acelerada, que se danem as metáforas meticulosamente arranjadas e as palavras com um milhão de sentidos nas costas. Eu quero vida. Quero mais sorrisos. Minha sede de calor e movimento nao sacia fácil não. Se o mundo anda meio frio e o sol resiste em aparecer; corro. Mas dessa vez não é mais de mim mesma. De que adianta? Se correndo de mim mesma, mergulhei e afundei cada vez mais no poço de mim que era e não queria? Se minha insistência em juntar mil palavras e mil luas, única fonte de esperança - e me atrevo a dizer, de razão, motivo, e quem sabe até resposta -, com o intuito desesperado de gritar, resultava sempre em silêncio? Como pude ser tão cega, surda, muda, a ponto de não perceber que minhas palavras sempre foram resultado do medo desnorteado que tenho de falar? Nunca entendi que gritar através do aparente conforto das palavras, por mais profundo e sincero que fosse, só me fazia afundar mais e mais no meu poço de silêncio. Nunca aceitei. Como se faz pra mudar?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008


joga um pouco de tudo o que há de mais forte no mundo sobre a minha cabeça. não é egoísmo, não pode ser, não peço muito mais que um pouco só. pra tirar da minha boca esse gosto marrom sujo podre e seco de imobilidade, inutilidade, insuficiência, não quero nada não, não peço muito mais que um pouco de terremoto em volta de mim, para variar. um meteoro caindo aqui e ali de vez em quando, quem sabe. ou simplesmente a minha cabeça. caindo aqui e ali, sendo forte, sumindo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Foi mais uma história jogada fora. Folha perdida no vento, aos poucos virou pó sob os olhos inexistentes de alguém que quisesse ver. Tempo?
Minha vida de livro aberto durou pouco, a simplicidade do caminhar leve e do sorriso sem culpa partiu levando consigo o conforto que nunca existiu. Pelo medo da imobilidade, permaneci cada vez mais imóvel. Pelo susto e anseio de ser, fui cada vez mais. Mais ausência de mim mesma?
Minha mente acelera de tal forma, que o que por natureza localiza-se abaixo dela não é capaz de sentir. Incompatibilidade dói. Enquanto esses pensamentos voam em segundos e alcançam pontos inimagináveis, permaneço parada. Como pode haver um jeito de saber tanta coisa sem de fato compreender nada?
Ganho horas olhando a enormidade de um céu que, apenas por colorir-se de cinza nos dias difíceis, já foi acusado de culpa por tanta coisa, inclusive vinda de mim. Hoje sinto um mundo por trás dele mais amplo do que o que existe no azul. Pois se o que existe pra mim está lá fora, não é olhando pro que é concreto e seco que conseguirei mudar. De tanto que já pedi por essa concretude de tudo, não a quero mais, não suporto a idéia das coisas serem aquilo e ponto, sem mundos por trás, sem fantasias, sem pensamentos ou corações. Aprendi a gostar do que não existe, para talvez poder gostar do que mora dentro de mim.
As pessoas vão procurando, tentando entender cada vez mais, perdendo dias e perdendo vidas em busca de algo que não pode ser encontrado se quisermos que a vida continue a sorrir. E se tivéssemos as respostas de tudo?
Não sei, tão frio... não quero mais, ao menos hoje. Que não me doa hoje o medo de que o medo de alguma ausência possa me impedir de olhar para além de mim. Que não me assuste o fato de que sou e não sei nada sobre isso, e que eu saiba alimentar-me dessa busca eterna e constante sempre sem respostas sem necessariamente sentir fome o tempo todo. Mas que a fome não suma para que eu não me acostume a não saber. Que eu entenda hoje e sempre que não entender é uma dádiva para poucos. Ter a consciência transparente de que há muito para ser compreendido e conhecido, e de que é tudo inalcançável. E que essa beleza e essa doçura das coisas não me corroa mais. Que eu possa sentir o frio sem chorar, mas que as lágrimas caiam vez em quando. Que elas não me deixem só.

terça-feira, 29 de julho de 2008



Não é mais tão fácil como foi um dia. Pego o papel e o lápis e todas as frases que surgiram durante o dia se dissipam. Talvez se eu não tivesse dissolvido-as ao sorrir e esconder o choro no instante em que os olhos secaram. Adjetivos e metáforas não são mais suficientes. O nó na garganta sumiu e não deixou nada em seu lugar.
Essa trava que me impede de sair aqui de dentro. Vejo o mundo lá fora com a mesma consciência de que meus pés não poderiam mais sair do lugar no momento em que eu suplicasse por movimento. E mesmo que saíssem, será que faria diferença? De que adianta andar por fora se o que tem dentro continua obscuro e inatingível?
Sei que as coisas são assim mesmo. Só que hoje não quero aceitar.
Largo histórias sem fim no banco da praça e deixo que a chuva leia. Se ela não gostar o vento devora, ou o tempo faz sumir.

Tentar transferir para a razão seca ao colorir com palavras infinitas a névoa cinza de dentro.
Nem isso conforta como ontem.


domingo, 20 de julho de 2008



Meu coração acelerado, já não sei ao certo se por excesso de pulso ou por falta. Não sei porque não compreendo nem identifico nada do que insiste em viver nesse meu interior tão antigo, tão cansado, tão vivido. Nesse eu que é ainda tão novo e tão recente. Meu coração acelerado, minha voz falha aos poucos, talvez algum dia eu encontre alguma espécie de força em meio a toda essa fraqueza, talvez um dia a fragilidade surja por debaixo dos destroços que ela mesma encarregou-se de destruir e agrupar, como num castelo um tanto quanto mórbido. Quem sabe um dia eu consiga parar de dar vida a todos esses sentimentos, fugindo do peso de ser ao atribuir-lhes tamanho significado e responsabilidade.
Meu coração acelerado, minha voz já se calou, minha garganta aos poucos seca depois de tantas lágrimas engolidas a força. Tantos fatos banais corrompendo-se e transformando-se em erros irremediáveis, sem que se pudesse evitar, se que se pudesse enxergar. Motivo, razão, solução, nada chegou a vir. Ou veio, e resolveu partir quando mais uma vez eu não pude enxergar.
Diante de tamanha imensidão da vida, do mundo, e da amplitude de tudo o que há lá fora - seja fora de mim, do meu círculo ou do meu mundo – diante de tamanha incompreensão indefinida, mais uma vez essa tristeza, tão premeditada, tão instável, tão mutante a ponto de ser sempre a mesma, toma a dianteira e me rouba todas as forças que ainda restavam escondidas em algum lugar de mim, prematuro, ainda invisível pros meus olhos de gelo.
Meu coração acelerado aos poucos começa a parar, minha voz já não tem força alguma para gritar, minha garganta e meus olhos secos não transbordam mais a secura da inundação interior, meus olhos, cansados de olhar para dentro, fecham-se por desistência.
Não desisti de lutar, ainda não. Mas é que hoje estou tão cansada...
Só quero poder deitar minha cabeça e descansar, ao menos o exterior, fechar os olhos e simplesmente esperar passar. Como se houvesse alguma coisa simples por aqui.

(espaço para reticências e um vazio indizível)

quinta-feira, 10 de julho de 2008


Escuta, coração, que as coisas não precisavam ter sido tão tristes. Mas transbordas nos olhos até quando eu rio. Rio de lágrimas não cola mais, clichês nunca foram suficientes. Hoje em dia dão nojo.
Escuta, minha angústia, nunca deverias ter dado tanto espaço pra tristeza. Proclamá-la estado de alma, fincar o rótulo na pele gasta, só lhe traz forças e lhe dá espaço para expansão. E quando a guerra tomar poder e apoio suficiente da população de sentimentos insatisfeitos, não haverá resistência à altura para que voltes a te comandar.
Ouve o grito que não tivesses coragem de dar, coração. Proclama teu amor ao mundo ainda que ele, tão incerto, tão covarde, não saiba ao certo onde criar raízes. Larga essa tua vida teórica e efetiva-a. Vive. Só depende de ti, coração.
Tenha medo e até me tome mais tempo, faça o que fizer, só por favor não se cale. Tua voz é minha voz, teu apoio, único e constante. E mesmo que muitas vezes fraco, é o responsável por me manter em pé. Tua essência é minha essência, e o teu coração...
Ah... Como insiste em ser triste.

sábado, 21 de junho de 2008


Andando sozinha por aquela rua desenhada em cores de outono, alheia à chuva que aumentava e à noite que rompia o silencio da movimentação exterior, ela pôde parar e esboçar um sorriso, sem medo de quebrar o movimento, sem medo de parecer tola, seu sorriso ia crescendo à medida que a chuva aumentava, porque quando o céu escorria em lágrimas a perplexidade por poder ver o mundo inteiro, de cima, tal como ele é, limpava-lhe a alma e deixava-a livre para sorrir, não que estivesse feliz, também já não estava mais perdida, nada chegava a fazer sentido e ela finalmente sentia-se serena, parada ali na chuva, sorrindo, besteira, o tempo passava, os rostos mudavam, a chuva diminuía e abria espaço para o vento frio e cortante, ela, porém, não sabia como se movimentar, não que seus pés estivessem atados ao chão, não que estivesse com frio, mas tinha medo que um movimento brusco pudesse interromper o – agora já antigo- ímpeto de sorrir, e além disso não sabia para onde direcionar seus pés, não acreditava mais na força que poderiam ter os pés que ela já não enxergava pois não conseguia movimentar a cabeça, quem sabe com um pouco de esforço conseguisse até se mexer, mas não ousaria, há tanto tempo não ousava, seus olhos focados, afogados em um ponto indefinido, tomados pelo susto da situação, inertes por um brilho estático que há muito ela acreditava ter partido, os rostos já não passavam, a chuva cessara e transferira-se para dentro de seu corpo, não que ela chorasse, desaprendera a arte, e de repente o vento soprou um pouco mais forte, mudou de direção e ela pôde andar, o sol nascia escondido por trás de tantas nuvens, não apareceria o dia inteiro, ela bem sabia, mas já conseguia andar pela rua deserta desenhada de medo, parecia ter fome, andando sozinha pela crueza de si mesma, sem ver o sol, sem sentir.

terça-feira, 10 de junho de 2008


"Ah, se fosse como a gente quer...
Ah, e se o planeta explodir, eu quero que seja em plena manhã de domingo, e que eu possa assistir."

Não sou de sair gritando por aí, embora minha alma quisesse vez ou outra expandir ao máximo a agonia de ser tudo e não saber de nada. Não sou de reviravoltas inesperadas, mas tenho horror à estabilidade do comodismo. Gosto do surpreendente. Do entorpecente. Do amor que de tão forte chega a machucar. Almejo o quase impossível. Sonho com o mundo do outro lado da rua. Sinto saudades antecipadas e tardias do chão que piso, tão íntimo, tão meu.
Guardo um coração que depois de tanta risada, começou a chorar. Bem de leve, discretamente, aos poucos se derrete em mil, em um, em nada. Tenho a estagnação do mundo num bolso, um par de asas na mão. Só não aprendi ainda a voar.
Tenho pavor da rotina. Sei que quanto mais naturais são as coisas que fazemos, quanto mais seguimos um determinado ritmo, chegamos mais perto do ponto da vida que ficamos cara a cara com o enjôo e o desespero. Tenho medo antecipado. Muito.
Se nunca tive curvas na vida e por isso não pude aprender a ser eu, não tenho culpa. Preocupo-me diariamente em parar de perseguir minha sombra. Calar os meus botões. Não perder de vez minhas lágrimas.

não briga não, não assusta. só me deixa ter meu medo sozinha. em paz (?)

domingo, 1 de junho de 2008


Me deixa ser que tá faltando espaço aqui dentro pra mim.
Quem me dera poder dizer tudo o que eu ainda não sei.

e de agora em diante...?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Eu choro, sabe? Choro sim, choro muito.
A pureza e a verdade de um choro não consistem nas lágrimas derramadas nem num grito muitas vezes forçado. Não molda um rótulo pra tua vida que ele te domina.
Não tenta se encaixar em algum lugar que é feio. Não força que é triste.

Esse aperto constante, meu, teu, do vizinho e de Deus, faz parte sabe? Não reclama que pior é a ausência da dor, a ausência do pulso, a falta da voz. Não pede pelo estável, que Deus não vai dar risada contigo.

O que é intocável não é natural, ninguém se identifica com a perfeição.

sábado, 3 de maio de 2008


dança junto com tudo o que dança.
não importa se conforme a música ou não, mas dança, que ainda que sopre forte demais, o vento gosta de quem dança.
ele só não sabe é demonstrar.
vento bobo, criança.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Quem escreve mente. Não adianta dizer que não, porque mente. Cria, fantasia, incrementa, esconde, aumenta um ponto e não conta conto, qualquer coisa que faça; mente.Porque a realidade é chata demais. M-O-N-Ó-T-O-N-A. É crua, é nada, e aí não serve pra escrever porque o nada chega a ser a ausência da ausência, uma neblina branca sem sal, não serve.

Ah, mente sim, não nega.

terça-feira, 8 de abril de 2008


se o mundo se perdeu ou foi a gente que se perdeu do mundo não importa, não é isso. se estamos condicionados a andar sempre reto, ou é o fato de andarmos reto que nos condiciona a ter medo das curvas, não importa. se temos essa mania escapista de buscar em coisas externas a ausência de dentro, mesmo sabendo que não é ali que residem, deixa pra lá. a vida se encarrega da nossa vida e põe tudo no lugar. e acaba pondo mesmo, não importa se deixamos de ter fé quando deveríamos ou se fomos fracos no ápice da luta. acredita que a vida põe, porque esse é o natural das coisas e elas não fogem tanto do ritmo como queríamos acreditar. e se é natural só deixa ser que tá bom.
mas não é isso também. não é o futuro que poderá cair em qualquer abismo de sonhos, nem o passado arrependido. não é o excesso de preocupação nem a insegurança de bater em portas desconhecidas. se amanhã assusta por ser duro e mais bonito do que caberia, não importa.
preocupações e medos súbitos não suprem mais a fome da falta. se temos medos, angústias, dores e mal-estares interiores, não importa, não é isso. por pior que fosse seria normal. o problema é esse caminhar constante e imutável de um ser tão mutante que não cabe e não sacia a si mesmo, sempre seguindo rumo ao instante duro de algo que não tem nome, de uma montanha inacessível que foi equivocadamente apelidada de agora. de hoje, de já, tão, eu.
e não era isso também.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Tenho criado um coração mimado.
É uma espécie de mimo diferente, já que não se deve ao excesso de amor, e sim à falta. Não à falta de amor-próprio, embora um pouquinho mais dessa fosse vista com bons olhos, não é a essa falta que me refiro. Meu coração é mimado pelo costume que eu adquiri durante todo esse tempo – que não sei se realmente existiu fora de mim, ou foi só o furacão que tem transitado aqui dentro. O fato é que tenho mimado meu coração com a dor. E não é que a dor esteja sendo inventada, multiplicada e cultivada, intencionalmente, simplesmente porque ele precise de alguma espécie de movimento para continuar sentindo vontade de bater.
Por tempo demais me alimentei dos dias cinzentos, que com o passar dos dias (que duravam séculos) iam sendo substituídos por qualquer outra coisa do gênero que fosse suficiente. Tentei a chuva incessante, o frio que vinha para ficar, o calor que não tocava, minha incapacidade de sair do lugar. Pus culpa na falta de intensidade, no excesso dela, na falta de amor, no excesso dele em mim, culpei a mim mesma por não saber quem realmente sou, sem perceber que de fato ninguém sabe, a diferença é que os outros são inteligentes o suficiente pra não ficar surtando por causa disso, ou não são inteligentes ao ponto de pensar sobre isso, não importa como eu defina, são os outros e não andam psicologicamente arcados com uma alma velha e cansada.
Sei que não posso, gênios da lâmpada à parte, o que eu queria mesmo era parar de pensar por um dia. Viver mesmo, inconsequentemente, não preciso de loucuras extremas nem nada, simplesmente sem pensar no movimento da vida, da roda, de qualquer coisa. Sem pensar em mim, dentro de mim, na diferença, na agonia,

segunda-feira, 10 de março de 2008

Meu Pai,
perdoa eu ainda não ter achado o caminho para te sentir dentro de mim. Perdoa as raras vezes em que acreditei profundamente que estavas comigo não terem tido a naturalidade que deveriam.
Me dê forças Senhor, para viver 24 horas por dia sendo eu mesma, com o caminhão de coisas que isso traz. Me ajuda a não perder nunca a capacidade de sonhar, de sorrir sem esse peso que me acompanha pra tudo quanto é canto.
Me ajuda a não perder a beleza da vida, da felicidade e das crianças.
Me dá coragem Pai, para dar a volta por cima de mim mesma e mudar. Me dê alma e muita coragem.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso." (Caio F.)

Que droga essa ausência. Falta alguma coisa que eu nunca tive, como uma perna que eu não perdi mas que deixou uma dificuldade enorme. Me vem aquela vontade idiota de sair na rua sem um pedaço, como se fosse algo bonito, para que sintam pena, para que reparem, não em mim, mas na minha ausência, já que esse buraco gigante que eu carrego aqui dentro é imperceptível até pros meus olhos.
Não, eu não tenho dragões aqui comigo, não tenho asas e o vento não sopra mais. Já é natural sentir certo companheirismo com os dias cinzas, com as almas doídas, com a falta de força e com o desespero. Aquele desespero que não grita, que se perde no silêncio, que não tem nem um olhar, quanto mais palavras pra demonstrar tudo o que atormenta.
Não é estranho que ainda assim a gente brinque que nem criança? e que vez em quando consiga esquecer absolutamente tudo?

"A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão." (Caio F. também, claro.)